2.10.07

Dionísio e Apolo, farinha do mesmo saco.



Não me identifico a 100% (provavelmente nem a 50%) com a teoria beat (ou queiroziana) dos "vencidos da vida". A vida é demasiado preciosa para a desperdiçarmos com lamentos e há muita coisa útil a fazer-se pelo mundo e pelos outros, pelos mais necessitados e que sofrem mais do que nós. Identifiquei-me, no entanto, com esta descrição da vivência experimental de Kerouac e seus companheiros:
fizeram-se à estrada, boémios aventureiros, (...) o ir mais longe, o ver mais além, a descoberta de outros e, no fim, a descoberta maior: a viagem ao mais profundo do ser, conduziu Kerouac pelo sonho americano. Na mochila levaram uma prosa espontânea, livre, rítmica como o jazz e poucos dólares. À boleia ou alugando carros, a beat ganhava ritmo. Os amores de ocasião, o álcool como desinibidor, pequenos trabalhos aqui e ali, honesto tanto quanto se pode ser à beira da marginalidade, conquistador (ou não) de raparigas em todas as terras por onde passa. A convivência com marginais simpáticos, caloteiros, vigaristas, tontos, vagabundos, (...) sentir "o odor devasso de uma grande cidade". "As únicas pessoas autênticas, para mim, são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por serem salvas, desejosas de tudo e ao mesmo tempo, que não bocejam, mas ardem, ardem, ardem como fabulosas grinaldas amarelas de fogo-de-artifício a explodir."
Um dia, crescemos. Aprendemos a separar as águas e a perceber algumas regras, que, entretanto, criamos só para nós e que ninguém tem de conhecer. Elas servem para impormos respeito, o nosso espaço, trilharmos o nosso caminho sem lamúrias, sem nos enterrarmos em actos de auto-destruição, seja de que modo for. Mas para isso, não me lixem, temos de levar e dar porrada, cair no chão e levantarmo-nos (será a vida toda assim, apenas mais tarde percebemos melhor tudo), fumar uns charros, beber umas merdas (apaixonarmo-nos por gente que não presta e sermos rejeitados por gente que presta e pedirmos por favor a alguém que amamos e que nos quer deixar). Concordo com o que aqui transcrevi. Entre os 17 e os 24, acho eu, andei por festivais, acampamentos, viagens em tudo improvisadas, dinheiro que se esgotava ao segundo dia por pura e abençoada irresponsabilidade, castigos dos meus pais, faltas às aulas, leitura compulsiva, escrita embriagada, más companhias, namorados imberbes e outros menos imberbes e sinto que nunca me perdi. Sinceramente sinto isso. Se mudei? Não importa esmiuçar quem sou porque esse processo é construtivo e contínuo, não estou interessada em tirar conclusões da vida aos 27 anos, só se fosse parva. Mas percebo o meu passado. Deixei de querer mudar para alguém do presente gostar mais de mim (é claro que vamos querer sempre mudar algumas coisas, ou pelo menos percebê-las, mas sem exageros nem guerras contraproducentes). Se queremos mudar alguém, como eu já quis ou quiseram comigo (com boas intenções, contudo), é porque nem de nós gostamos, vivemos num limbo de inseguranças interiores que passamos a vida a disfarçar socialmente. Damo-nos ares de adultos, de cigarro na mão e copo na outra, bem ou mal vestidos (ambos os recursos podem ser uma defesa), teorizamos sobre nós e ainda mais sobre os erros dos outros e aí sim, estamos perdidos. Porquê? Tanto mundo lá fora, tanta ajuda que se espera e não vem, tanta natureza e arte feita para nós, seres humanos maravilhosos, tanta coisa por descobrir, a nossa própria companhia! Olho para trás, para os meus anos beat :) e penso que bom que passei por eles e segui, segui, segui, em frente, "como uma fabulosa grinalda amarela de fogo-de-artifício a explodir". Com mais calma.

4 comentários:

Randomsailor disse...

E há os que fazem tudo o que fizeste e perdem-se e há os que não fazem nada e perdem-se também, e os que não fazem nada e não se perdem. Há de tudo... Contudo, o que me parece mais importante disso tudo o que escreveste é que ainda não te cansaste de crescer. Ainda não te cansaste...:) E para mim, o "com mais calma" é simplesmente gastar a energia nos sítios certos.

Debbie Harry disse...

Exactamente. Ainda bem que me entendeste.

vague disse...

Debbie, esse texto do Kerouac é absolutamente maravilhoso. E vou roubar-te um pouco dele para pôr lá por casa, é meu um pouco (já viste a beleza da leitura e dos textos que adoramos? são só nossos e nunca são só nossos)
Qto a ti, vejo uma sede de viver, uma consciência num texto bonito e lúcido, como se fosses
a tal "fabulosa grinalda amarela de fogo-de-artifício a explodir"
:)

Debbie Harry disse...

Eu vagueio muito pelo teu blog. Tens lá textos e poemas que escolheria certamente para o meu espaço virtual, sim, ou mesmo para o meu quarto, uma vez que partilho o vício dos post-its com a personagem da Meg Ryan no filme In The Cut. Fascinam-me citações e por vezes apenas palavras isoladas ou aglomeradas sem sentido. Fico contente que reutilizes algumas das palavras deste blog!