7.5.08

Imaginem um edifício em construção, quase pronto, em cujas obras encontraram emprego muitas pessoas e que embelezaria toda a área circundante, criando espaços de convívio entre os indivíduos, melhor qualidade de vida aos seus habitantes ou frequentadores e, quem sabe se, futuramente, a construtora avançaria para mais um ou outro edifício complementar ao inicial. Tipo um work in progress (esta frase apeteceu-me meter aqui que está muito em voga e eu acho um piadão. Por exemplo, eu conhecia uma rapariga que dizia muito a palavra "híbrido". Para ela tudo era um "híbrido", dizia aquilo muita vez. Também adoro dizer "muita vez" em vez de "muitas vezes". Adiante.)

Este edífico do qual vos falei sucintamente, ruiu um dia. Imaginem o que sentiram as pessoas envolvidas. Imaginem agora como parecem um insulto e uma tristeza as máquinas, os materiais que ficaram (os que não foram soterrados, claro).

Com uma relação pode acontecer algo de muito paralelo ao que descrevi acima.
Tudo o que resta parece subitamente muito triste, tudo o que se disse um dia, o "para sempre" que nos fez continuar com aquela pessoa, as fotografias, as cartas, os espaços reservados para.

Este não é um post revelador, nem saudosista, nem triste. Imaginei este paralelismo esta semana ao pensar na vida, no que sou, no que me rodeia (sobretudo no que me rodeia). E acho que o importante é sabermos bem no nosso íntimo que existe vida depois dos escombros. Que muitas vezes os próprios escombros são vida e deles nasce algo de sublime, ainda que os primeiros meses sejam duras provas para os nossos corações.

O que vamos acumulando numa espécie de curriculum emocional não fica soterrado (se o tentarmos fazer seremos traídos pelos fantasmas mais tarde ou mais cedo), serve-nos para reconstruir novas crenças, aceitar que existem palavras e espaços que podem ser reaproveitados, ensinamentos que vamos utilizar de modo mais ou menos consciente e outros que vamos ignorar para cometermos mais erros daqueles que fazem crescer, outros que só fazem mal, outros ainda que só fazem é bem.

O tempo passa e o coração fica perto da razão, nunca se confundem, as loucuras são mais intensas, os segredos mais nossos, os encantos quebram as dúvidas, as dúvidas transformam-se em certezas (ai, as certezas). Com cuidado e amor-próprio o outro (que é o nosso espelho em quase tudo o que nele vemos) vive connosco feliz. Pode mesmo viver connosco feliz. Digo isto porque muitas vezes parecemos ver em tudo uma luta, tudo é crescimento, tudo é tempestade e bonança. Mas não tem de ser sempre assim, tudo isso cansa, tudo isso nem sempre dá frutos. Nos dias em que tudo explode e tudo parece negro, naquelas relações bonitas, um dos dois sabe esperar que passe, enquanto o outro tem liberdade para atirar cá para fora o que tem de pior. Acredito em relações que não passam de sexo conveniente, relações que são boleias, relações que duram 10 anos e são amizade, relações de 50 anos que resistem a tudo, relações por dinheiro, relações heterossexuais que duram seis meses e resultam num filho, relações encomendadas, relações homossexuais de facto que duram há dez anos, relações pagas, relações entre pessoas que só discutem e se deitam a baixo (nem por isso terminam), relações de respeito e apoio mútuo, relações, relações, relações. Em menos de um mês vou a um casamento de uma união de facto de cinco anos que resulta na perfeição com pessoas imperfeitas. Não consigo criticar relações. Não consigo apontar um resultado, agoirar porque me parece mal. Acho que consigo aceitar tudo que não inclua maus-tratos ou qualquer tipo de violência (e nela incluo a mentira).

Vistas de fora, não importa quando ou como começam, se vão acabar ou durar. Importa que aparecem, que nos devem moldar ou fazer resistir. E que, muitas vezes, muitas mesmo, vale a pena ficar para ver. Todos os dias.

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