2.12.08

Marta


Minha querida, que sei eu da vida? Falamos desde cedo, desde a confirmação da tua existência, a minha mão sobre um ventre liso, 9 semanas e um coração a bater num ecrân. Eu chorei de comoção, fui uma grávida bem chata e com montes de defeitos, ("ai não te enerves que a menina nasce nervosa"), nunca menti sobre quem era, a minha relação contigo assenta(rá) na palavra verdade, sou tua mãe desde que me conheço por gente, o teu nome guardado num baú estranho, onde estava eu antes de eu nascer?, respostas que chegam em silêncio e que talvez nunca parem de chegar sem palavras, assim mesmo como o amor, o amor todos-os-dias, o amor que parece cansar de tanto existir para sempre, os segredos que ninguém sabe de nós, as partilhas, o teu feitio calmo e seguro, as tuas birras de criança normal, quem nunca fez uma birra que levante o braço, quem nunca foi desagradável que atire a primeira chupeta (coisa que nunca quiseste), as tuas ainda se contam pelos dedos de uma mão (as birras) mas espero que faças sempre algumas porque nem sempre nos queremos portar bem e nenhuma criança tem de fazer fretes todos os dias. Nasceste de um sentimento que eu não entenderei jamais, nasceste e és feliz e isso é tudo o que importa. És minha mas não me pertences. Obrigada por me ensinares em silêncio. Amar-te-ei para todo o sempre. Eis a minha única certeza. Meu corachão.