19.7.08

O Poeta

Quando ceguei decidi ser fotógrafo. O que me levou a tomar esta decisão foi (após prolongado período de escuridão absoluta) a quantidade de imagens surgidas no meu espírito. Primeiro, desfocadas, sem contornos nem volume; depois, a pouco e pouco, os elementos que as compunham definiram-se, tornaram-se reconhecíveis. Pude ver, enfim, o que o meu espírito criara; e nenhuma das imagens (pelo menos que me lembrasse) se parecia com as que, porventura, vira antes de cegar.
(...)
Agarra nesta chave - desvenda o espaço onde podes prolongar aquilo que cessou.
(...)
Mas não te quero demorar mais. Se quiseres, antes de seguires viagem, ensino-te os nomes dos animais. E se me deres a tua mão, queimar-te-ei os dedos, exactamente como queimaram os meus. Depois, poderás partir por essa linha litoral traçada pelo fogo sobre a pele.

Alberto Raposo Pidwell Tavares - Al Berto

2 comentários:

finestamp disse...

o Al Berto faz esquecer a diferença entre prosa e poesia.

Ameixinha disse...

Al Berto lembra-me o medo e o incêndio... e ele é muito mais que isso com tanta ou maior intensidade.